sexta-feira, 20 de junho de 2014
O Esquisito.
Minha mente está transbordando. E dessa vez é diferente.
As coisas sempre foram muito intensas para mim.
Mas nada fazia sentido realmente.
Não até eu descobrir o que havia de diferente em mim.
Meu uso de "piloto automático" e os inúmeros escapes.
A hipersensibilidade sensorial - razão de meus sangramentos.
E até minhas manias mais absurdas e incompreendidas.
Todas as coisas que criaram um muro entre as pessoas e eu.
Tudo agora começa a fazer algum sentido. E isso é bom.
A minha vida inteira, eu me senti desconexo. Literalmente.
Por vezes, ouvia minha mãe dizer coisas que eu não entendia.
"Você vive nessa casa como se não estivesse realmente aqui.
Vive como se estivesse de passagem. Vive como um hóspede."
O que minha mãe não sabia é que ela estava absolutamente certa.
De forma alguma eu queria estar ligado ao mundo em meu redor.
Eu fazia apenas o estritamente necessário. Se eu fizesse tudo direitinho..
Poderia mergulhar no meu mundo interno, sem ser incomodado. E ainda é assim.
As coisas ao meu redor são um ruído na minha sinfonia interna.
Eu tenho uma vida dentro de mim que é alheia ao meu ambiente.
Estou quase sempre absorto em coisas que não compartilho.
E embora tenha uma péssima memória para certas coisas...
Tenho a estranha mania de memorizar dados aparentemente inúteis.
Não para mim, é claro. Mas para as pessoas em geral.
Talvez este seja um dos muitos motivos que me mantém distante.
Eu não me interesso por coisas alheias ao meu mundo.
E raramente sei lidar com as pessoas por causa disso.
Elas fogem ao previsível. Me deixam sem saber como reagir.
Lembro das repetidas vezes em que ouvi: "Olhe nos meus olhos."
"Olhe para mim, menino! Estou falando com você!"
"Eu estou falando com você. Você está prestando atenção?"
Quase sempre, sim. Minha mãe era a única capaz de me 'puxar de volta ao mundo'.
Mas então ela se foi. E não foi a única.
Mergulhar no meu mundo interno se tornou mais que uma simples escolha.
Para mim, era agora imperativo que eu ficasse sempre lá. Era uma necessidade.
Meu piloto automático ficou ligado sem qualquer chance de retorno.
Eu estava viciado em me sentir entorpecido.
E agora não tinha mais alguém para fazer ruído.
Foi em meio à confusão de meu mundo, no meio do meu torpor...
Que senti as minhas estruturas serem abaladas por alguém de novo.
Tal pessoa conseguiu prender minha atenção em meio a tantas.
Mas não poderia ser menos conveniente que ela era, de todas...
A mais imprevisível.
Eu não fazia ideia de como lidar com ela. Eu não sabia me comportar.
Quando eu achava que estava fazendo algo que a agradaria...
Aí é que eu estava fazendo besteira mesmo. Ela se irritava muito.
E eu ficava atordoado, tentando descobrir o que fazer.
Tentar agradá-la era como ter um furacão em minha mente.
Exigia todas as minhas energias para organizar as coisas.
E eu acabava metendo os pés pelas mãos. Sempre.
Era extremamente cansativo, mas valia a pena para mim.
Quando ela começou a exigir que eu saísse da minha bolha...
Começou também a cobrar coisas que eu não estava preparado...
Eu não estava preparado para oferecer. Ela não me aceitava.
E eu não poderia esperar que aceitasse. Ninguém aceitaria.
Por causa desse conflito entre nós, fiz ainda mais besteiras.
Eu não sabia como explicar o que me bloqueava.
E mesmo se eu explicasse ela não me compreenderia.
Eu diria a ela qualquer coisa, mas não tinha coragem de dizer...
O que realmente me afligia. Porque nem eu mesmo sabia.
Eu tentei consertar minhas falhas por estudar e catalogar personalidades.
Emprestei alguns conceitos e termos da astrologia e da psicologia.
A partir daí, comecei a observar e analisar as pessoas implacavelmente.
Eu estudava a parte teórica de suas personalidades... e observava na prática.
A habilidade de me relacionar com as pessoas melhorou bastante depois disso.
Eu olhava para ela como se estivesse vendo através de uma janela embaçada.
E agora ela havia se tornado um pouco menos nebulosa para mim.
Eu aprendi a interpretar linguagem corporal básica.
E apesar dos muitos livros que devorei sobre o assunto, não foi suficiente
Sou constantemente pego de surpresa por situações desconcertantes.
Situações mais complexas, onde interpretei errado as palavras de alguém.
Todas as minhas dificuldades eram e são barreiras sólidas entre o mundo e eu.
E quanto mais percebo que não sei viver nele, mais mergulho em mim.
Eu sabia que precisava de ajuda, mas a terapia era o mesmo que nada.
De nada me adiantava ir lá porque eu não entendia 80% daquilo.
Então as coisas começaram a piorar até que.. eu a perdi.
E assim, com o colapso de minha percepção sensorial...
A sensação de tormento contínuo me assolou.
Uma violência avassaladora tomou conta de minha alma.
A violência que eu lutava com todas as minhas forças para reprimir.
Todos os meus escudos caíram e a escuridão que morava em mim apareceu.
Eu era um cretino. Eu realmente não prestava. Por isso, ela me detestava.
Qualquer pessoa seria mais feliz longe de mim.
Porque agora eu nem me esforçava mais para disfarçar.
Não fingia mais que me importava em ser sociável.
Não tinha mais um furacão em minha mente.
Eu era o furacão.
E destruía tudo que se aproximava.
Eu era o 'bad boy' dos livros.
Intocável através da muralha que ergui.
Mas foi assim até cerca de dois anos atrás.
Foi quando alguém furou meu bloqueio.
Eu, no entanto, nunca mais fui o mesmo.
Eu não mais fingia ser como os outros.
Eu já a conhecia de longe, mas não fazia ideia que ela sabia quem eu era.
Ela me conheceu de verdade no momento em que eu havia baixado a guarda.
Eu não tinha o menor interesse em tentar parecer normal. Eu era o que era.
Ela, para minha surpresa, não se intimidou com isso.
Quando perguntei o que ela achava de mim...
Sua resposta foi um choque e um alívio ao mesmo tempo.
"Eu acho você um cara muito esquisito."
Esquisito?! - eu pensei. Aquilo soava muito mal, cara.
Então ela completou, desanuviando minha tensão.
"Mas não é num sentido ruim.
É que eu nunca conheci alguém como você."
Essa parecia ser uma excelente descrição.
Ela decidiu ficar ao meu lado. O que me surpreendeu também.
E mesmo com todos os meus momentos 'fora de sintonia'...
E as minhas esquisitices, manias e neuras..
Ela consegue ser sempre mais carinhosa que no dia anterior.
Acha graça das minhas esquisitices e entende meu senso de humor "bobo".
Não me rejeitou. Nem mesmo quando revelei a ela o meu pior.
Aliás, junto com ela, eu deixei outras pessoas entrarem na minha vida.
As minhas queridas pipoqueiras. O gosto pela leitura uniu a todos nós.
Elas me ensinaram que ser esquisito é normal. Para meu alívio.
Aprendi com elas que as pessoas não formam um padrão uniforme.
A diversidade e a imprevisibilidade são a beleza do padrão humano.
E agora eu não passo um dia sequer sem observar as conversas delas.
Arrisco-me a falar, de vez em quando. Mas é uma investida perigosa.
Como diria Vitória: "O Bas se empolga quando ele sabe muito sobre o assunto."
É melhor manter a discrição quando posso, ou posso virar um tagarela.
Nunca pensei que eu tinha capacidade para tagarelar em uma conversa.
Mas elas me causam reações estranhas de vez em quando.
Então, sim, minha mente está transbordando.
Mas é de coisas boas. De planos pro futuro.
Estou transbordando de esperanças.
Talvez um dia..
Eu olhe para trás e veja que aprendi a conviver com todas as minhas dificuldades.
Porque elas nunca vão deixar de existir. Eu sou o que sou e isso não vai mudar.
Talvez um dia.. eu aceite plenamente o que há de pior em mim.
E nesse dia estarei pronto para as pessoas que me aceitam incondicionalmente.
Descobri que mesmo o esquisito pode ser amado.
Que uma fera pode ser tocado por uma bela.
E que um furacão pode ser acalmado.
"Eu sei o que você está fazendo. Você está tentando me afastar porque acha que eu não te aceito do jeito que você é. Eu vi a sua reação. Vi você esperando pela rejeição depois de me contar todas essas coisas. E vi a sua surpresa quando eu não recuei. Acontece que eu aprendi a te amar com todas as suas qualidades e com todos os seus defeitos. Eu amo você por inteiro. E não vou te deixar por isso."
Se eu vou mesmo conseguir aceitar o esquisito?
Eu não tenho certeza. Eu só posso esperar que..
Talvez um dia.
Ouvindo agora: Maybe Someday - Griffin Petterson
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